(23/02/2026), o péssimo dia.
Como me sentir bem? Quando comparo todos os cursos possíveis do que pode ter acontecido, só consigo chegar a uma única conclusão final. À medida que os dias passam, retraio-me mais, faço greve de palavras e jejum das falas, não abro a boca e nem escrever tenho conseguido. Incomunicável, inalcancável, sozinha, cometendo o mesmo erro que me assombra desde que era apenas uma menina; quando se internaliza tudo, em algum momento você vai explodir.
Seja voluntário ou forçado, esses sentimentos gritam para sair, como os pequenos problemas clamaram a Pandora para sair da caixa. Desconfio que estou em meio à guerra, que meu corpo se vinga da minha mente. A arma de guerra é uma velha conhecida, a insônia, esta que bate na porta de casa enquanto finjo que não a ouço chamando no portão.
Sinto que hoje fui testada espiritualmente pela minha paciência, começando com a noite de sono fervente que mal me deixava descansar de tão quente que se fazia esta madrugada de verão, febril e efervescente, um aviso. Então os sinais começam, o pequeno chaveiro que quebra nas minhas mãos e enfinca seu plástico barato na minha palma. O anjo da guarda implorava para que desta vez minha aventura fosse em casa, mas, para que o seu anjo possa te ajudar, você deve sair de sua cabeça, olhar ao redor e entender os sinais das valquírias. E então, a bolsa, o terceiro sinal. Aquela torturante bolsa, esta que deixou marcas em meus ombros, como se quisesse que eu me lembrasse a mim mesma que não se ignoram os sinais: "relembre um pouco deste dia torturante que você teve, aprenda com a dor insuportável que (literalmente) carregou", me marcando para que até o final de semana eu tenha que encarar as marcas que este péssimo dia que iniciara esta mesma semana (e talvez me lembrar que se eu saísse da minha cabeça e olhasse ao redor poderia evitar minhas dores). O ônibus que perdi foi apenas o chantilly, pois a cereja deste bolo preparado por alguma dessas criaturas infernais que resolvera fazer do meu dia seu espetáculo pessoal da vez ainda estava por vir. Era tanto estresse que só queria me debulhar em lágrimas; eu merecia, chorar era minha recompensa por um dia tão ruim como aquele, não tinha o que piorar.
Então piorou. Não entra na minha cabeça essa necessidade odiosa, essa soberba de querer sempre ser o centro (como se o mundo já não girasse em torno deles) das atenções. Segurando o choro; era assim que eu me encontrava, nem ao menos dava para olhar para alguém em minha posição. Quando, pelo susto, eles me obrigam a olhar, não porque eu quis, mas porque eles quiseram que eu visse o espetáculo. Foi ali que conseguiram olhar meu rosto, colocar uma feição ao corpo. Que nojo. Que nojo. Que nojo. Nunca fizera um caminho para casa tão enojada como me senti. Precisei do banho, assim como precisava de água, pois minha boca estava seca de tanto tempo que mantive fechada. A água que descia do chuveiro e batia em meus ombros me lembrava que as marcas de hoje vão sempre doer, e eu apenas tenho que aprender a conviver com elas. Só chorei no conforto do meu quarto, longe dos perigos. E, mais um dia, passei em jejum e não falei mais nada.
A boca faminta se abriu e arrancou um pedaço de mim para saciar sua fome, enquanto o estômago do outro roncava. A criatura estava paralisada, pobre presa que se finge de morta para não virar almoço. Infelizmente, não se pode fingir de morto por tempo demais, porque até os portadores dos olhos de cervo marrons sentem fome, e eles, os predadores, ouvem o seu estômago e te devoram por inteiro, não, nunca e apenas uma parte, sempre um inteiro.
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