Velha amante, eu só existo até onde você me deixa existir.
Cadavérica e com medo, procuro me aninhar nos braços da minha amante mais antiga; minha querida, teu cheiro de enxofre e teu beijo sabor ferro me dói e me sangra. Penso em ti todos os dias, pouco a sinto, e, quando sinto, não te tiro da cabeça; só resta me atirar às ruas. O que me conforta é saber que, nos dias em que estarei para baixo, você me esfaquearia pelas costas e se aninharia ao meu lado (como já fez inúmeras vezes). Brutus amou César enquanto o apunhalava. Medeia amou a seus filhos quando os matou por vingança. Incestuoso romance este o nosso; eu te vejo como minha amada e te sinto como mãe, e você me trata como filha-irmã-amante-criatura, desprezo em seu olhar, conforto em teus braços. Nós devoramos infinitamente como ouroboros; somos as mesmas pessoas, somos opostas. Sou humana e tu és sentimento; sou criatura e você é criador, anjo da música e discípula. Como mãe coruja, você me viu crescer, me criou e me aprisionou até eu te amar como resultado do meu ódio a mim mes...