pela mesma janela do onibus
Manhã cedo —
Sou uma construção de tudo que eu trabalho para ser, meus esforços não foram em vão, eu percebi enquanto o cheiro de protetor solar infesta o quarto. A raposa parece satisfeita, estamos em sincronia finalmente, não mais brigando com garras, dentes e sangue pelo mesmo receptáculo. Não estou falando que vai permanecer assim para sempre - ambos sabemos que não existe paz harmoniosa que o defeituoso humano não quebre. Pelo menos é bom. É bom não precisar estar sempre em guarda, não precisar estar com a mão acima do canivete, esperando a criatura de dentes afiados e garras enormes morder meu pescoço e o jogar fora. Chega a ser tranquilizante, finalmente, depois de todo esse tempo, na mesma medida em que é assustador ter que lutar contra o medo de estilhaçar o espelho frágil que reflete os dois. Menina/raposa/humano/selvagem/animal/animal.
Sei que devo aproveitar, oh deus tudo que eu fiz foi para poder aproveitra, toda essa luta e para ter a chance de aproveitarmos. No final, talvez fosse melhor se eu nao tivesse descorberto, nao tivese criado consiencia, percebido, agora ao inves de a encara-la pelo reflexo do espelho eu a vejo olho no olho - e a raposa me encara de volta. Em estado de paz. Fragil. Momentaneao.
ESCREVER me faz lembrar de sentimentos que eu nunca soube que vivenciei, e talvez eu não tenha. Eu me perco nas memórias e já não sei diferenciar o que é meu e o que é dela. Onde eu começo, onde ela termina. Sentir demais vai ser sempre minha falha fatal que infeta tudo que faço, escrevo e crio.
Meio-dia —
Eu choro com discursos de pessoas pedindo centavos no ônibus — não porque o evangelho que elas pregam me toca, até porque o deus que eu conheço, aquele que canta com os pássaros de manhã, avisando pelos raios de sol que já é primavera, e beija minhas bochechas nos ventos frios da noite, é muito diferente do deus das suas histórias, mas sim, porque eu não consigo evitar.
Eu gostaria, e como gostaria, de poder me doar inteira para aqueles que pedem ajuda, mesmo que eu não saiba se são 'merecedores' de bom caráter, porque de fome eu entendo bem, da física até a de espírito. Os dois reais que eu gastei poderiam mudar a vida um de alguém, e como posso não me martirizar sobre isso? Eu sei que não sou santa (nem quero ser), mas sempre sinto tanto que não fazer nada me dói como se estivessem me degolando em praça pública. Do que adianta sentir, querer, se o fazer eu não posso? Tudo vindo de mim é muito: muitas perguntas, muitas vontades, muitas lágrimas e, sempre, no final do dia, esse vai ser o motivo. A raposa odeia meus muitos e eu odeio os muitos dela. No final do dia, já nos estranhamos mais uma vez, e sempre um ciclo vicioso, de novo e de novo, infinitivo repetitivo e redundante. Nós duas somos como o ouroboro. Eu sou, eu sou, eu sou. Tu és, tu és, tu és. Tão constante como uma estrela do norte, Julio Cesar.
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