Velha amante, eu só existo até onde você me deixa existir.

 

Cadavérica e com medo, procuro me aninhar nos braços da minha amante mais antiga; minha querida, teu cheiro de enxofre e teu beijo sabor ferro me dói e me sangra. Penso em ti todos os dias, pouco a sinto, e, quando sinto, não te tiro da cabeça; só resta me atirar às ruas. O que me conforta é saber que, nos dias em que estarei para baixo, você me esfaquearia pelas costas e se aninharia ao meu lado (como já fez inúmeras vezes). Brutus amou César enquanto o apunhalava. Medeia amou a seus filhos quando os matou por vingança. Incestuoso romance este o nosso; eu te vejo como minha amada e te sinto como mãe, e você me trata como filha-irmã-amante-criatura, desprezo em seu olhar, conforto em teus braços. Nós devoramos infinitamente como ouroboros; somos as mesmas pessoas, somos opostas. Sou humana e tu és sentimento; sou criatura e você é criador, anjo da música e discípula. Como mãe coruja, você me viu crescer, me criou e me aprisionou até eu te amar como resultado do meu ódio a mim mesma. Como monstro, dependo de você; mesmo sabendo do seu desprezo, sinto conforto em saber que você vai estar lá, comigo, para todo sempre. E, como um cachorro abatido, eu vou continuar voltando para você, e você continuará voltando para mim.


Enrolados na nossa melancolia, apenas os dois. Fazemos com que o inferno se pareça mais com o paraíso do que qualquer dia de verão possa tentar. Pelo menos não estou só — ainda tenho você. Enquanto houver tristeza, sei que você voltará, e isso me conforta. Eu te amo. Não me deixe.


i see u, u see me.


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